quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Cansámo-nos desta vista

Quando o dia começou a bocejar e tentámos ligar o carro do Jorge ele já estava adormecido. Tentámos o "chove", mas nada não havia cooperação possível. Esperámos pelo mecânico até que o carro obedeceu. Arrancámos com um pedido desculpas acelerado ao telemóvel, mas logo no mossuril parámos de novo. A noite chegou....e com ela o Hafiz, que nos salvou. No carro estivemos horas com conversa de fôlegos, pensando que no dia seguinte deveria ser este carro a levar-nos a Nampula.

Melhor de tudo

O apetite pelo pequeno almoço fez-nos regressar a casa. Sendo Domingo, decidimos que o dia seria uma repetição do melhor de tudo...ou talvez nem por isso...apenas concordámos repetir a ida à praia das chocas.

O dia foi mais longo, mais desfrutado e acompanhado por um casal de catalães (hospedes do meu irmão que o destino quis juntar). Ela pivot de um canal de televisão e ele um perito de vídeo, que se apaixonou pela mulher que estava para lá da objectiva. A conversa foi sobre o futuro...convidamo-los a regressar no nosso carro..mas o destino pôs-nos à prova.

Lulas? ou foto?

A perspectiva é ímpar, mas a interrupção é inevitável. Dois compradores indagam "quer lulas?"....ao obrigado disparam "e foto?" Click.

Linha para o Céu

Na manhã de Domingo o primeiro passeio é pelo tapete de pedra que forra o chão do mar e que acama a fortaleza. O som do mar compete com as saudações esbatidas dos pescadores da matina. A linha para o céu surge pedindo um novo reparo pela obra militar que edificámos neste lugar.

Nova Sorte

O dia acabou na tranquilidade com que começou. Na esplanada virado para o mar o pensamento visita-nos obrigando ao tema da vida. "A vida é uma canoa que todos os dias usamos para navegar pelas marés, desviando-nos das correntes e tempestades e acreditando nos anúncios de bonança publicados no céu. Mas sobretudo é uma canoa que está la todos os dias, aquela que garante que todos os dias se dão de novo as cartas e que pode haver sortes novas"

Verde água

No caminho de regresso, a colecção de casas é uma competição de criatividade. A sua assimetria torna-as autenticas obras de arte. Instalações únicas de autor, com inspirações diversas, algumas invocam o mediterrâneo com molduras verde-água nas janelas. Os telheiros penteados trazem personalidade e os animais em seu redor, o movimento.


domingo, 19 de outubro de 2008

Prato do Dia

Quando vimos este peixe o apetite começou apertar e apresámo-nos a chegar a Nacála. Encostámos no primeiro restaurante (com bungalows) em Fernão Veloso. Comemos esplendidamente...uns rissóis épicos, uns camarões grelhados e outros fritos...regamo-los com 2M, mas a surpresa foi a galinha cafreal que era sublime.

A 3ª ou 4ª maior baía do mundo decorou o horizonte até decidirmos voltar para casa ao fim de um dia bem passado.

Postal para a Europa

Esta fotografia fez-me apreciar a diversidade de vidas que podemos escolher viver neste mundo tão bonito. Rapidamente se fecha esta foto com vontade de abrir um pequeno restaurante virado para o mar e voltar costas à vida como se vive na Europa apenas com um postal.

Polvo ou peixe papagaio

Com a expectativa da oportunidade de vender, logo apareceu um pescador para enriquecer a oferta. Polvo ou peixe papagaio? Sentimo-nos pressionados, mas resolvemos o caso com uma fotografia de grupo.

As conquilhas trinitron

Quando nos debruçamos sobre a simpática oferta que nos fizeram vacilámos...mas não era possível levá-las connosco. Aproveitámos apenas as conquilhas trinitron para afinar a sensibilidade e o contraste de cor das nossas cameras.

A gente de Krusse

As crianças ofereciam as poucas conquilhas que haviam apanhado, mas o nosso interesse era apenas fotográfico. As cores das vestes e do mar pareciam estar combinados para compor um quadro tropical único. Os panetones inspiraram e assim fizemos várias fotos turquesas.

Domingo com surpresa

Domingo reservava-nos uma surpresa, o Jorge havia antecipado um passeio de carro de mais de 100Km para irmos visitar a pequena baía de Krusse. Uma pequena maravilha. Um ensaio de Deus antes de se arriscar com Nacála. O isolamento é quase total...só umas vozes de alegria infantil nos chamam a fazer uma caminhada e encontrar a gente local.

Uma Coca Cola?

Nesta praia descascámos a tarde com umas coca-colas e alimentavamo-nos das conversas que apareciam pela esplanada. O Frederico brincava na areia à vista-de-olho e guardado pacientemente pelas brincadeiras dos miúdos mais velhos. Garanto-vos que a Coca-Cola ainda sabe melhor em África...e aqui pode-se confiar no gelo.

O inslólito do quotidiano

Comentámos as riquezas que recheiam o palácio do governador com a vista do Relíquias, mas ainda não foi desta vez que nos cansámos da hospitalidade e da gastronomia. Como se numa novela do Jorge Amado estivéssemos, todos os dias acrescentámos um capitulo especulado em torno dos novos clientes do dia.

Após o almoço decidimos passear até à praia (ao lado da Fortaleza). Foi no caminho que encontrámos mais um episódio insólito do quotidiano. Um pescador com um xarém de mais de 8 quilos numa magra bicicleta que quase se queixava de ciumes..e do peso que levava às costas. O pescador, esse minimizava o evento, dizendo é coisa que acontece.


terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Palácio do Governador

Como o tempo é elástico transformámos o que faltava para a hora de almoço numa visita guiada ao Palácio do Governador. Repleto de tapeçarias, móveis antigos e obras de arte, soube-nos bem a regra de termos de visitar descalços...

Os matraquilhos também querem dançar

Como o tempo tarda a passar, passou a haver uma mesa de matraquilhos....para que alguém o conte. Sete bolas de tempo é um bom tempo para passar a ver....e ouvir!

Neons naturais da avenida principal

Mais eficazes que os neons da Nova Iorque, os sorrisos de marfim brilhante cativam quem passa até que uma voz solta um "Quer Comprar Doce?". A cultura asséptica que adoptamos não permite logo, mas adia apenas num dia a experiência deste convite. É impossível resistir!

O fortim de São Lourenço

À deriva, o fortim de São Lourenço parece flutuar independente, mas na maré baixa é um passeio num livro do Tintin. Um sitio onde as aranhas vivem como cães de guarda a troco da guarida natural que a fortaleza promete.

A dama da Ilha

Nas costas sentimos companhia, era a dama da ilha, a árvore que nos recebe...mas que também chora quando usamos a ponte rumo ao continente. Mas hoje era um dia feliz e por isso torneamos a árvore para espreitar o fortim de São Lourenço. No caminho as pessoas justificam o som que havíamos experimentado.

A irgeja de São Francisco Xavier

Esgotámos caminho de Ilha no final da rua, onde parámos para contemplar a igreja onde São Francisco Xavier terá dito missa. A quem perguntámos parecia evidente que os templos haviam de estar juntos como aliás as pessoas, independentemente das suas convicções.

A alegria vive no interior

A rua chamou-nos de novo a continuar a aventura...as lojas faziam pirraça umas às outras como se de exposições temporárias vivessem. A cidade de macuti contrasta os cinzentos e a apreensão que se sente pela austeridade com que vive a comunidade, com a alegria das crianças e o contraste das cores que se escolhem para alegrar os interiores das casas.

O mocho branco


Houve um acontecimento bizarro que nos fez acelerar o passo para entender o burburinho das pessoas um pouco à frente. A cena era cruel e simultaneamente romântica. Um rapaz havia capturado um mocho branco, encadeado com a luz do dia, e ostentava-o como se de um troféu de coragem se tratasse. A rapariga distraia-se entre o sorriso para a foto e o medo da criatura. Salvamos o animal dizendo que existe uma lenda de que quem mata um mocho viverá a vida como o mocho vive o dia - cego.






A mesquita...e a arquitectura

Quando chegámos à porta da mesquita a bela arquitectura da mesma ocupou-se do nosso tema e atravessou a estrada para pousar no pátio dos quintalinhos...a casa do arquitecto italiano - Gabriel. Um simpático rapaz que se enfeitiçou pela Ilha de Moçambique, quando participou no trabalho de levantamento arquitectónico da ilha no processo de classificação como património da humanidade. Hoje o Gabriel gere esta casa de hóspedes e ajuda os novos empreendedores a manterem o traço e o espirito deste sitio nos imóveis que são acarinhados com recuperações.

A Mesquita..e o seu Sanjabe

Foi na senda do verde que seguimos viagem ao avistar a mesquita e a conversa recuperou a viagem da descoberta da história desta ilha onde as religiões marcaram encontro e decidiram ser vizinhos fraternos.

Comentámos com admiração um sábio trintão, pai de 4 raparigas e um "melhor "amigo de toda a sua gente - o Hafiz. - Régulo e Sanjabe é ele que orienta e aconselha as comunidades que emolduram mais de 1300 mesquitas em Moçambique inteiro.

A caça das fotos

Sendo Sábado decidimos passear pela ilha recolhendo imagens para o blogue. Visitámos de novo o mercado onde os verdes haviam crescido...onde a disposição dos produtos se diluiu no meio da disposição das pessoas, então mais alegres e descontraídas.
Os cachos de bananas, plásticas de reais que são, troçam a harmonização intencional da nossa fruta na Europa....mas é no sabor que nos gravam saudades para sempre.

sábado, 11 de outubro de 2008

O por do sol...com os corvos...e um gin tónico imaginário

Partilhámos o por do sol com os corvos, que com ciumes da atenção que a paisagem nos merecia, apelavam ao nosso reconhecimento. O gin tónico fez falta apenas para completar a experiência e glorificar o mito de que o quinino serve para matar os poucos mosquitos que sobrevivem o voo do continente para a Ilha de Moçambique.

O regresso no crepúsculo

Fizemos o regresso à ilha iluminados pelo sol cansado e o Frederico a dormir. Lá estava o forte para nos receber, ladeado pela capela de Nossa Senhora do Baluarte, construída em 1522 e considerada o edifício colonial mais antigo de toda a costa do Índico. As rezas que se ouvem esbatidas invocam Meca com o barulho da agua a estabelecer um tom de fundo.


...e a piscina natural

Do lado do Indico o coral e as conchas amontam-se na costa, anunciando do que se farão as areias futuras daquela ilha. Funcionam como cartazes de uma atracção futura que se espera repetitiva e intocada. De regresso decidimos aceitar a proposta da tripulação para para dar um mergulho na piscina natural. Foz de um braço de água, a piscina é local de tradição de fim de semana para os poucos estrangeiros que na ilha habitam e para os que cansados de ver a ilha desde a Cabaceira decidem ver só mar.

Os sete paus

Mas o nosso destino era outro, zarpavamos para a ilha dos sete paus. Foi aqui que Deus decidiu criar o resto do mundo. Nesta ilha perfeitamente deserta cruzam-se os verdes das aguas baixas com o azul profundo do Indico. Um tundra africana com poucas arvores plantadas para sombra, estende-se por cima da areia branca para acolher-nos como se fossemos amigos dos que antes ali estiveram. A vista das Chocas só se interrpompe com um grito do Zé a anunciar a passagem das baleias.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Navegar fabulando

Na sexta-feira o dia estava ideal para velejar, saímos ao mar com o Hasumano e a sua tripulação de dois, neste barco carimbado com os anos de aventura e com um marinheiro remendado pelas partidas dos ventos e das marés. É uma experiência transportada no tempo. Navegar ao largo da maravilha da engenharia militar com mais de 500 anos - a fortaleza de São Sebastião, fabulando sobre os ataques que ali aconteceram ou as descobertas arqueológicas que estão por acontecer é perfeitamente único e excitante.

A Ginja (lê-se Gin Ja)

De regresso a casa, encontramos as cores da casa. Mais que mãe e tia é miúda contida num sorriso gigante. A Anifa, decidiu mudar de nome e hoje é a Ginja. A governanta amiga do Jorge, sensibilidade em pessoa feminina e protectora do Frederico. Beleza de alma em embalagem da Ilha, é com ela que se quer falar das coisas bonitas e simples da vida.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

As Chocas

No segundo dia de viagem dedicamos o pequeno-almoço a decidir se íamos de carro ou de barco para aquela que muitos dizem ser a praia mais bonita de Moçambique, a praia das Chocas. Uma vez lá, a sensação de isolamento e de paz é única, a areia parece um espelho de coral e a agua é aquecida pela personalidade dos pescadores esporádicos. Mesmo na entrada da praia existe a única recordação da civilização, uns bungalows discretos e bonitos e o restaurante da Carrusca.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Conversas pela noite dentro

Foi com esta vista da esplanada do Relíquias que matámos o resto do dia...a conversar com o Rino (um neurocirurgião italiano que há vários anos se refugia na ilha, como quem se abriga num convento).

Interrompi o prazer do diálogo para regressarmos a casa e encontrar o Rodrigo e o Zé (que escrevia as suas notas de viagem). Restava apenas o jantar para completar o dia, mas ainda antes quisemos tomar uma caipirinha na pousada do Rino - o Escondidinho (a pousada é giríssima e tem um restaurante bar com uma piscina num pátio interior que é bem agradável).

Depois do jantar, o Jorge foi deitar o Frederico e nós estendemos a toalha de mesa estrelada sobre nós e conversámos sobre as "coisas da vida" até que o meu charuto morreu e para os quartos a gente se recolheu.

sábado, 4 de outubro de 2008

As cores das distrações

Enquanto esperávamos pela comida, surgiam distracções. Fosse um galo a passear fossem estes rapazes a chamar pelo Frederico para brincar, todas elas nos entretinham com cor, alegria e simplicidade. O contraste das cores deste sitio indico tem uma magia que é impossível resistir.

O Reliquias

Entrar no Relíquias é passar pela experiência do tempo...passar pelas fotografias do antigamente ...e ungirmo-nos com creme de nostalgia. Apenas a simpatia da Cláudia e o cheiro da comida nos distraem até que a vista nos paralisa. Comemos uns bolinhos de camarão e uns rissóis. Enquanto esperávamos pela resistência, fez-nos companhia a Mac Mahon (2M para os amigos).

O domador de tarântulas

Guardava a porta do relíquias um vendedor de doces, ou direi um domador de tarântulas inexperiente? sejas dos dois o que se escolher foi o rapaz de azul, que ao adiramos a compra dos seus doces para depois do almoço, desvendou por debaixo das suas golas duas tarântulas. Encorajado pelo meu Jorge, prosseguiu com o seu espectáculo completo e pôs uma delas na sua boca. O silencio que se fez, desconfiamos, não foi por falar pouco português...mas seguramente pelo estrago que a aranha lhe fez. Tentámos recompensá-lo pelo ardor e logo propôs um espectáculo com cobras. Essas não as vimos, pois entrámos para comer.

As alfaces de água

Ficou prometida uma entrevista à Nina, que o tempo não deixou acontecer, mas aqui fica uma homenagem à "instalação" da natureza que ela criou. Poderia ler-se um titulo, como se de uma obra de arte moderna se tratasse - "natureza viva em tanque de lavar". Deixámos os elogios para trás e dirigimos-nos para o restaurante relíquias, mas faltava um encontro com a coragem antes de nos sentarmos à mesa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

As "instalações" da Nina


No Jardim da Nina, como instalações de arte contemporânea, dispõe-se canas coloridas com vista para o mar e um tanque de alfaces de água. Foi neste jardim que nos lembrámos do tempo. Sim porque em Moçambique, foi nos dito "Na Europa tens relógio, nós cá...temos tempo" A criatividade da Nina ladeia apenas com a sua honestidade e por isso temos dois artesãos joalheiros cá da ilha, que genuinamente se encontravam a trabalhar por lá.

A loja da Nina

De caminho e cheios de fome prometemos passar pela loja da Nina depressa e apenas felicitá-la pela sua enorme coragem e força de vontade, para nem mencionar a sua criatividade. A loja é de facto fantástica e merece ser visitada com calma, pelo que foi o que decidimos fazer. Comprei apenas um kufi para não dar azar.

Capitania da Ilha

Fomos pousar a câmara a casa e decidimos visitar a capitania da ilha. Como se de uma cidade fantasma se tratasse, entramos a medo, chamando por alguém que nos legitimasse a visita ao interior das oficinas de reparação. Quando contemplávamos uns canhões recuperados e limpos pelos arqueonautas (uns caça tesouros) apareceu o "cubano" que desconfiado fingiu estar tranquilo e que nos permitiu entrada. Como se de uma fotografia do blaufuks se tratasse uma mesa esperava pelo retrato das gavetas empilhadas. foi verdadeiramente artístico e nostálgico imaginar o frenezim que outrora ali devia haver.